A brincadeira é o próprio aprendizado
Uma caixa de papelão se transforma em automóvel. Depois, se torna boneca. E ainda vira berço. Nas mãos e na imaginação das crianças, frascos vazios, tampinhas de garrafas e folhas de árvores ganham vida e se transformam em brinquedos. Nessa brincadeira, é possível descobrir a si próprio, o outro e o mundo ao redor, de forma divertida e prazerosa. Algo tão simples e inerente à criança, mas que foi depreciado pelo modelo de educação vigente.
“A brincadeira é uma necessidade própria do ser humano. O brincar brota espontaneamente na criança, que desde bebê brinca com as próprias mãos, depois com
objetos, explorando o mundo de forma própria, sem regras. É uma ação de autoconhecimento que permite fazer relações, reflexões e determinar coisas importantes para toda a sua vida. É por meio da brincadeira que ela cria, imagina, constrói imagens e memórias, se desenvolve corporal, cognitiva e emocionalmente”, diz Maria Lúcia Medeiros, coordenadora do Projeto Brincar.
O Projeto, que se iniciou em 2005, fruto da parceria entre o Cenpec e a Fundação Volkswagen, tem por objetivo a formação de professores da Educação Infantil de escolas públicas para sensibilizá-los sobre a cultura da infância e ajudá-los a rever suas práticas educativas. O Projeto é voltado para educadores que atuam com a faixa etária de 0 a 5 anos, mas algumas ONGs que atendem crianças maiores e adolescentes também participaram do projeto ao longo desses anos e inseriram as atividades lúdicas em seus programas, obtendo ótimos resultados.

“Muitos professores, depois de participar da formação, relatam que as crianças estão mais felizes porque estão brincando mais e com isso têm vontade de ir à escola. Por meio da brincadeira, elas adquirem conhecimento de si, ficam mais autônomas, criam e inventam mais, se relacionam melhor com os outros e aprendem coisas que levarão para o resto da vida. Para os professores, o Projeto Brincar proporciona mais leveza e alegria, porque muda o seu olhar em relação aos alunos e instiga a buscar soluções para as dificuldades que enfrentam. A escola ganha vida”, avalia Maria Lúcia.
O Projeto Brincar aborda a importância das brincadeiras e da vivência da infância, procurando transformar as práticas educativas. Ele vai na contracorrente de um modelo de educação que percebe o brincar como perda de tempo ou mero instrumento para aquisição de conteúdos curriculares. Esse modelo de educação também separa as crianças por faixas etárias, dificultando a interação e o rico aprendizado que se dá quando crianças de idades diferentes interagem. Isso se verifica especialmente quando se trata de bebês e crianças pequenas, que muitas vezes ficavam confinados em berços ou em espaços reduzidos, por conta da ideia de que são extremamente frágeis e necessitam de absoluta proteção.
O Projeto defende que a integração entre diferentes faixas etárias só traz ganhos. “Na escola onde trabalho, o Centro Educacional Unificado (CEU) Alvarenga, a integração é total. As crianças mais velhas acolhem os bebês de forma generosa,
aprendendo que eles têm outro ritmo e outra forma de pensar. E os bebês aprendem com a linguagem dos maiores e suas formas de brincar”, diz Renata Cristina Dias Oliveira, coordenadora pedagógica da Prefeitura de São Paulo e membro do grupo gestor do Fórum Paulista de Educação Infantil.
A extensão do brincar a todo o período escolar seria uma boa saída para os horários rígidos e a falta de espaços voltados a brincadeiras nas escolas, que dissociam os momentos de brincar e de estudar. Além das brinquedotecas e do parque, todos os locais da escola poderiam ser utilizados. Afinal, as crianças constroem brincadeiras em qualquer lugar e a todo momento, mesmo que os adultos nem percebam.
No mesmo sentido, Renata reflete: “A nossa forma de pensar inclui a configuração lúdica e imaginativa, que é interligada à brincadeira. Um engenheiro, por exemplo, exerce uma profissão extremamente racional, mas ele projeta o que não existe e que começa na sua imaginação. Essa separação entre raciocínio e criatividade, imaginação e ciência, não faz parte do humano”.
Educadores entram na brincadeira
Um dos desafios à presença das brincadeiras na escola é a mudança na postura e no pensamento do professor, concebendo a educação de forma mais ampla e interdisciplinar. Muitas vezes, ele se vê oprimido pela cobrança, de gestores escolares e da família, de seguir uma rígida rotina escolar e um programapedagógico em que é preciso trabalhar os conteúdos estruturados e obter bons resultados. Ao reduzir a brincadeira a um instrumento de aprendizado, ela perde seu valor. É preciso desvencilhar o brincar da finalidade didática de transmitir conteúdo, já que ele é a própria forma de a criança aprender.
Um dos desafios à presença das brincadeiras na escola é a mudança na postura e no pensamento do professor, concebendo a educação de forma mais ampla e interdisciplinar. Muitas vezes, ele se vê oprimido pela cobrança, de gestores escolares e da família, de seguir uma rígida rotina escolar e um programapedagógico em que é preciso trabalhar os conteúdos estruturados e obter bons resultados. Ao reduzir a brincadeira a um instrumento de aprendizado, ela perde seu valor. É preciso desvencilhar o brincar da finalidade didática de transmitir conteúdo, já que ele é a própria forma de a criança aprender.
“A brincadeira é o aprendizado e a produção de conhecimento. A brincadeira não auxilia no aprendizado, ela é o próprio aprendizado. Se a pessoa não se arrisca a passar pela experiência, não tem como produzir conhecimento”, pondera o professor Marcos. “Hoje os professores acham que é bom ampliar o período do recreio de 15 minutos para 30 minutos. Isso é falso, porque as crianças deveriam brincar o tempo todo quando estão na escola”.
As brincadeiras são uma via de mão dupla, que fortalecem o relacionamento e nutrem educador e crianças. Ao brincar com as crianças, o educador participa da construção do conhecimento e é capaz de oferecer novas propostas. Ele pode trazer objetos para incorporar às brincadeiras ou propor algo que tenha feito parte da sua infância e que talvez as crianças não conheçam. O educador também pode estimular as crianças a trazer brincadeiras para compartilhar com o grupo.
“Nas minhas aulas na graduação, eu faço uma provocação e substituo a palavra ‘pedagogia’, que tem origem no grego e significa conduzir a criança, por ‘brincalogia’, que seria conduzir as brincadeiras. Isso para despertar a ideia de que educador e crianças podem brincar juntos na construção de um saber mais universal, que possa dialogar com os outros e com outras culturas”, observa o professor da FE-USP.
Tudo vira brinquedo
Os recursos utilizados nas brincadeiras são muitos e diversos: brinquedos, sucata, cantigas de roda, contação de histórias, música, dança, desenho, modelagem, entre outros. Bastar ter vontade e tempo disponível, pois as crianças sabem brincar e fazem isso muito bem.
Os recursos utilizados nas brincadeiras são muitos e diversos: brinquedos, sucata, cantigas de roda, contação de histórias, música, dança, desenho, modelagem, entre outros. Bastar ter vontade e tempo disponível, pois as crianças sabem brincar e fazem isso muito bem.
“A brincadeira proporciona a integralidade das crianças, que se desenvolvem por inteiro. A brincadeira desenvolve a humanização, a criatividade, a interação com o outro, as linguagens, o enfrentamento das desigualdades, o poder de diálogo e negociação”, diz Renata. Entre outros aspectos, o brincar estimula a linguagem oral à medida que, durante as atividades lúdicas, a criança pode cantar uma música ou contar uma história, melhorando a comunicação.
O brincar com objetos não estruturados também levanta a discussão sobre gêneros e etnias. “Por que há determinados brinquedos para meninos e outros para meninas? Por que os meninos não podem brincar de boneca? Brinquedo é brinquedo, não tem gênero. Mas os conceitos da nossa sociedade mercadológica permeiam as brincadeiras, que segmentam os brinquedos por gênero e por cor: rosa para as meninas e azul para os meninos.
(fonte: http://plataformadoletramento.org.br/em-revista-reportagem-detalhe/751/a-brincadeira-e-o-proprio-aprendizado.html)
Nenhum comentário:
Postar um comentário